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FORUM
DE DOR DAS ILHAS DO ATLÂNTICO |
Duarte Correia, Teresa Ferreira, Rui Silva
Unidade de Terapêutica de Dor – Hospital Central do Funchal
A ANALGESIA NO PÓS-OPERATÓRIO – RECOMENDAÇÕES DA
UNIDADE DE TERAPÊUTICA DE DOR
Duarte
Correia, Teresa Ferreira, Rui Silva
Unidade de Terapêutica de Dor – Hospital
Central do Funchal
A Unidade de Terapêutica de Dor iniciou a sua actividade
em 4 de Abril de 1991, sendo reafirmado posteriormente em 1993 o seu conteúdo
funcional, exercendo a sua actividade na dor crónica oncológica e não oncológica
(com excepção das cefaleias) e na dor aguda, incluindo a analgesia do pós
operatório (exceptua-se pela sua especificidade a analgesia de parto).
Em colaboração com os diferentes Serviços Hospitalares,
temos tentado adaptar e optimizar a nossa capacidade assistencial, de acordo
com os recursos existentes e com as solicitações crescentes, evoluindo de
uma forma progressiva e continuada, com a adaptação possível mas necessária
a uma realidade hospitalar em mutação, reflexo das transformações socio-económicas
de uma Sociedade em que o tratamento da dor primum movens da nossa actividade cede
progressivamente lugar ao conforto do doente.
A analgesia do pós-operatório, a sua organização, técnicas
utilizadas e fármacos prescritos, normas e recomendações propostas tem sofrido
uma evolução contínua na actividade desta Unidade, com envolvimento de todos
os seus membros que de forma continuada e colaborando com os médicos assistentes
(cirurgiões), anestesiologistas e equipa de enfermagem, tentam proporcionar
aos doentes no pós operatório a melhor analgesia possível e o máximo de conforto,
tendo em atenção a realidade hospitalar, recursos disponíveis, segurança e
eficácia nas técnicas utilizadas e prescrições efectuadas, minorando os seus
custos directos e indirectos, evitando a cronificação da dor.
De um modelo inicialmente baseado na anestesiologia
evoluímos, por circunstâncias diversas, para uma actividade que poderíamos
citar como a de uma adaptação do “Nurse Pain Management”, modelo proposto
por Harald Breivik e Nariner Rawall.
Uma actividade continuada no decorrer de muitos anos,
muitas vezes eminentemente voluntária, implicando visitas bi-diárias (início
da manhã e final da tarde) aos doentes, na maiorias das situações clínicas,
sem rupturas nos fins de semana ou feriados, com adaptação e revisão da terapêutica
administrada, com mudanças de via de administração e posologias após a retirada
de PCA ou DIBs ás 48/72 horas, pressupõem além de um entusiasmo permanente
uma organização e uma estrutura motivada, adaptativa e eficaz.
Esta actividade pressupõe alguns vectores principais:
·
Ensino
pré operatório:
o
Técnica
analgésica proposta;
o
Inspirometria
incentivada;
o
Minorar
a ansiedade.
Utilizamos
a denominada analgesia balanceada, conceito teórico em que a prescrição de vários fármacos,
actuando ao longo da via nociceptiva, apresentam efeitos sinérgicos ou aditivos,
permitindo um aumento da eficácia analgésica e uma diminuição dos efeitos
secundários.
Consideramos,
na nossa prática que uma má ou deficiente analgesia pode ser consequência
de:
·
Menor conhecimento de médicos ou enfermeiros;
·
Protocolos rígidos ou inadequados;
·
Terapêutica uniforme ou prescrita em SOS;
·
Doses insuficientes de fármacos;
·
Intervalos de administração desadequados;
·
Prescrição ou administração não
efectuada;
·
Pouca atenção prestada ao paciente.
As
técnicas sofisticadas,
menos utilizadas, na rotina diária implicam um aumento da vigilância, pelo
risco inerente á uma menor prática e pelos possíveis efeitos secundários dos
fármacos ou possíveis complicações destas técnicas.
Na
prescrição da analgesia
é importante ter em atenção a patologia coexistente, a disponibilidade de
pessoal e equipamentos, os riscos e efeitos secundários da terapêutica ou
inerentes á técnica utilizada.
Consideramos,
que embora estímulos semelhantes não produzem níveis idênticos de dor, a selecção
da técnica e dos fármacos deve ser adequada á cirurgia efectuada, maximizando
a eficácia e minorando os seus custos.
Programamos
as técnicas
de Analgesia Balanceadas de acordo com:
·
Cirurgia efectuada, Patologia associada;
·
Técnica anestésica utilizada;
·
Associações adequadas e recomendadas;
·
Posologias adequadas;
·
Terapêutica individualizada;
·
Fármacos, vias, técnicas adequadas;
·
Respeitando as normas;
·
Educação e ensino do staff e dos pacientes;
·
Sem protocolos rígidos ou inadequados;
·
Simples, eficaz, segura.
Insistimos
no registo sistemático da dor (V sinal vital) padronizado, de acordo com a Norma em vigor,
em todos os doentes e na avaliação dos possíveis efeitos secundários ou complicações
com regras estritas e instruções claras e precisas para o contacto imediato
com a Unidade ou outro médico sempre que necessário.
Adoptamos e adaptamos o esquema proposto por
Jorgen Dahl e Narinder Rawal, cuja estratificação nos parece
ideal e de fácil implementação para um número elevado de profissionais de
diferentes formações.
No
1º nível a prescrição
de Paracetamol associado (ou não) a NSAIDS, sem recurso a “opióide fraco”,
permitirá diminuir ou evitar os vómitos as náuseas e a sonolência.
No
2º nível desta
escada analgésica a associação de Paracetamol, NSAIDS e opióide e a aplicação
concomitante das técnicas preconizadas pelos autores (fig.5), permite uma
melhor analgesia e uma diminuição significativa dos efeitos secundários.
O
3º nível desta estratificação,
implica o recurso a opióides, sistémicos ou epidurais associados ao Paracetamol
e NSAIDS, com recurso possível aos Anestésicos Locais, Clonidina, Corticoide,
Relaxante Muscular, preconizando ainda os seus autores a infiltração da ferida
operatória.
Ao
prescrever uma analgesia balanceada procuramos obter ou garantir a segurança do doente, proporcionar
um alívio adequado da dor, diminuir e minimizar os efeitos secundários da
terapêutica, reduzindo o sofrimento e as possíveis complicações do pós operatório
dos pacientes, minorando os custos directos (material, fármacos e recursos
humanos) e indirectos (evolução pós operatória, estada hospitalar) muitos
vezes mais importantes e significativos e evitar ainda, todas as situações
de possível evolução para dor crónica sempre tão difícil de tratar.
Na
prática clínica
diária desta Unidade o Paracetamol, o Metamizol e o Tramadol, isolados ou
associados (pelo seu efeito aditivo ou sinergismo), são de uma forma inquestionável,
e por variados motivos os fármacos prescritos na grande maioria dos nossos
doentes.
Respeitamos
escrupulosamente o RCM dos diferentes fármacos, as suas indicações, contra indicações absolutas
e relativas dos diversos medicamentos, as associações proibidas ou não recomendáveis,
a sua farmacocinética, actualizando de forma permanente e sistemática toda
esta informação com o imprescindível apoio e colaboração do Serviço de Farmácia
Hospitalar.
Obviamente
não associamos
dois NSAIDS (excepção nalgumas situações ao Metamizol – que apresenta uma
escassa actividade anti-inflamatória e diferente mecanismo de actuação), não
os prescrevermos em simultâneo com os Corticoide, nem nos doentes com AP ou
risco acrescido de complicações gastro intestinais no tracto superior.
Uma
maior incidência
no risco de agranulocitose (1:1.000.000) com o Metamizol, implica uma maior
precaução na prescrição deste fármaco.
Respeitamos
e aplicamos todas as recomendações referentes aos COX2 em particular as aplicadas ao Parecoxib
e a sua contra-indicação nos doentes com doença coronária isquémica ou cérebro
vascular estabelecida, não sendo prescrito este fármaco, nos pacientes com
Insuficiência Cardíaca Congestiva (Classe II NYHA) e no pós operatório de
cirurgia de bypass da artéria coronária (CABG).
A
nossa opção por
técnicas de perfusão contínua, nas 48/72 horas no pós-operatório, constitui
um dos factores limitantes e que cerceia a utilização do Cetorolac pelo limite
de 24 horas recomendado para a sua perfusão EV.
O
Paracetamol, com a sua apresentação EV não necessitando de preparação ou diluição é um fármaco,
muito utilizado, existindo por rotina um limite temporal (48, 72 horas) na
sua prescrição e uma atenção particular ás suas indicações e contra indicações.
O
Tramadol EV é administrado
em perfusão contínua na quase totalidade das suas prescrições e associamos
a metoclopramida para prevenção das náuseas e vómitos.
Sem
critério científico
evidente, temos recorrido a protecção gástrica, utilizando por rotina inibidores
das Bombas de Protões, sempre que prescrevemos NSAIDS (excepção ao Parecoxib).
Recorremos
a analgesia contínua por DIBs ou PCA, sempre que a cirurgia o justifica e as circunstâncias
o permitem, sendo a média ou grande cirurgia abdominal uma indicação quase
formal para utilização de uma PCA.
Na
administração de
morfina por PCA, utilizamos as “máquinas fechadas” (ex. Deltec®) e preferimos
para as perfusões com Tramadol os aparelhos da ABBOTT®, (GemStar®, APM Provider®)
que permitem um fácil preenchimento do reservatório, pelos enfermeiros do
Serviço, evitando qualquer interrupção do tratamento.
Nas
perfusões administradas
para analgesia contínua temos em atenção:
·
Local de prescrição e administração, com
analgesia adequada e eficaz no Recobro pós Anestésico
·
Dose de carga;
·
Efeito tecto;
·
Tempo de recobro anestésico;
·
Iniciar a perfusão no Serviço de origem
(se adequado), considerando a farmacocinética e o denominado “corredor analgésico”.
Propomos
o recurso Opióides fortes sempre que necessário e se justifique, numa
analgesia balanceada, de acordo com a escada
analgésica
referida anteriormente.
Na
prescrição destes
fármacos respeitamos o conceito básico de não associar opióides, as suas indicações, efeitos secundários, riscos,
doses de carga e de impregnação adequadas (se prevemos uma analgesia contínua),
dedicando uma particular atenção á sua eficácia, vigilância e segurança evitando e minorando todos os potenciais
riscos ou efeitos secundários.
Administração intra
tecal de morfina: implica na nossa opinião uma permanência adequada e prolongada
na Sala de Recobro (Ex.: nos Protocolos do Hospital de Bicêtre: 18 horas).
Recorremos
a analgesia contínua epidural se as condições de segurança o permitirem, iniciando a sua
perfusão algumas horas (6 – 12horas) após a dose de impregnação, tendo em
atenção o corredor analgésico, evitando todos os potenciais riscos ou efeitos
secundários.
Sem
pretender cercear ou limitar as prescrições médicas, ou a utilização dos diferentes fármacos,
temos em atenção os valores unitários de aquisição e o custo médio destas
terapêuticas analgésicas.
|
Fármaco |
Custo unitário |
Média tratamento / dia |
Custo máximo tratamento / dia |
| Morfina, ampola 1% (10mg) |
3,142 € |
|
|
| Petidina, ampola 100mg |
2,08 € |
|
|
| Tramadol ampola 100mg |
0,374 € |
1,122 € |
1,496 € |
| Metamizol – Dipirona Magnésica (Nolotil®) ampola 2g |
0,30 € |
0,90 € |
1,20 € |
| Paracetamol (Perfalgan®) ampola 1g
|
4,208 € |
12,624 € |
16,83 € |
| Cetorolac de trometamina (Toradol®), ampola de 30 mg |
4,60 € |
13,80 € |
18,40 € |
| Parecoxib Sódico (Dynastat®) ampola 40 mg |
6,80 € |
13,6 € |
13,60 € |
| Diclofenac
ampola 75mg |
0,119 € |
0,119 € |
0,238 € |
| Tenoxicam ampola
20mg) |
0,74 € |
0,74 € |
1,48 € |
| AAS
ampola 1g |
0,85 € |
1,70 € |
2,55€ |
A
estes valores teremos que contabilizar e adicionar o tempo gasto nas
respectivas manipulações, na
administração, o das suas soluções, bem como os eventuais dispositivos utilizados
(DIB, PCA).
| DISPOSITIVO |
Custo unitário (estimado) |
| DIB 30 Horas |
23.50 € |
| DIB 48 Horas |
25,88 € |
| DIB 72 Horas |
32,9 4 € |
| PCA ABBOTT |
12,47 € |
| PCA GEMSTAR |
18,99 € |
| PCA DELTEC |
36,14 € |
Nota:
valores aproximados, a que acresce IVA
A
prescrição de acordo
com a Unidade de Terapêutica de Dor em
todas as grandes e médias cirurgias analisando a técnica anestésica utilizada,
cirurgia efectuada, a patologia associada, respeitando as indicações, normas
e o conteúdo funcional da Unidade de Terapêutica de Dor tem permitido evoluir “do
tratamento da dor ao conforto do doente” e evitar
a cronificação
da dor.
Em
anexo algumas das prescrições mais utilizadas na prática clínica, baseadas na nossa experiência
diária e fundamentalmente nos ensinamentos ministrados pela Dr.ª. Cristina
Partida durante a nossa estadia no Hospital Dr. Juan Negrin em Las Palmas.
Forum
de Dor das Ilhas do Atlântico
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